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Vorcaro disse que atuaria para manter Otto Lobo na presidência da CVM, mostram mensagens analisadas pela PF: ‘Vou falar com a minha turma’

Banqueiro afirmou que nome era ‘ótimo’ e precisava ser efetivado; chefe da autarquia nega ter procurado apoio do dono do Master

Por Marco Grillo, Lauriberto Pompeu e Thiago Bronzatto | O Globo

21/09/2026

Vorcaro disse que atuaria para manter Otto Lobo na presidência da CVM, mostram mensagens analisadas pela PF: ‘Vou falar com a minha turma’
O advogado Otto Lobo, presidente da CVM — Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Brasília – O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou que atuaria para manter o advogado Otto Lobo na presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mostram mensagens analisadas pela Polícia Federal. Lobo assumiu a autarquia interinamente em julho de 2025, após a renúncia do presidente, e tomou posse de forma efetiva no cargo em junho deste ano, depois de ter sido aprovado pelo Senado. Procurado, Lobo negou ter buscado apoio do dono do Banco Master e disse que não tem “ingerência sobre conversas privadas de terceiros”.

No dia seguinte à saída do então chefe da CVM, João Pedro Nascimento, Lobo procurou o advogado Ciro Soares, que atuava para o Master e servia como elo entre Vorcaro e determinadas autoridades.
 
Lobo buscava apoio político para ser indicado pelo governo e aprovado no Senado, responsável pelo aval às indicações presidenciais à CVM. As mensagens mostram que ele tentava uma ponte para conversar com o senador Otto Alencar (PSD-BA), integrante da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), que realiza sabatinas dos indicados para o órgão que regula o mercado. O advogado e o parlamentar são amigos. Soares procurou Vorcaro para avisar que Lobo tinha ligado e narrou a conversa.
 
“O Otto Lobo da CVM me pedindo uma ajuda para falar com o senador Otto (Alencar). Pediu para levá-lo no Otto (Alencar), porque ele quer ficar na presidência da CVM. O Otto da CVM é muito meu amigo e gosta de você (Vorcaro). Até falou comigo que chama você de ‘leãozinho da montanha’. Eu falei: ‘Gostei do apelido, viu’. E ele (Otto Lobo) falou: ‘Sim, o leãozinho da montanha, o moleque é danado, trabalhador’”, disse Soares a Vorcaro, em áudio enviado no dia 19 de julho de 2025.
 
“Ótimo ele. Tem que colocar na presidência”, respondeu o banqueiro.
 
Na véspera, Nascimento havia renunciado ao posto alegando “motivos pessoais”, em um movimento que foi visto como incomum pelo mercado. Ele tinha mais dois anos de mandato. A CVM estabelece normas e fiscaliza o mercado financeiro, com poder de aplicar sanções em caso de irregularidades.
 
Procurado, Soares afirmou que “desconhece qualquer tratativa do senador Otto Alencar com Vorcaro ou qualquer outro líder político ou empresarial para manter no cargo o presidente da CVM”. A defesa de Vorcaro não se manifestou, mas tem reiterado que ele está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
 
O presidente da CVM acrescentou em nota que o processo de indicação de autoridades “demanda interlocução com os responsáveis por sua aprovação no Senado” e lembrou que Alencar é integrante da CAE. Já o parlamentar negou ter atuado a favor de Lobo.
 
— Nunca estive com esse cara (Lobo) nem tenho relação com ele. Soube que ele ia ser indicado, mas nunca intermediei encontro — disse Otto Alencar.

“Vamos fazer acontecer”

Lobo virou diretor da CVM em janeiro de 2022, ainda no governo Bolsonaro. Três anos e meio depois, assumiu a presidência de maneira interina. A indicação presidencial para assumir de fato a chefia demorou a sair diante do impasse vivido à época entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Havia também questionamentos a uma suposta lentidão da CVM na prevenção a fraudes como a que foi descoberta nas investigações sobre o Master.
 
Na conversa analisada pela PF, Soares e Vorcaro se comprometeram a ajudar na articulação a favor de Lobo. O advogado disse que iria levar o então presidente interino da CVM a um encontro com o senador Jaques Wagner (PT-BA), que à época ocupava a liderança do governo no Senado. Wagner afirmou que a conversa não aconteceu, que nunca atuou a favor do Master e não pode responder por “conversa de terceiros, da qual não participou e desconhece o contexto em que ocorreu”.
 
“Dani, vou trabalhar pra isso. Não te contei o que o cara (ex-presidente da CVM) fez antes de sair. Ele fez uma sacanagem (…) Falei com Otto (Lobo) que pode contar comigo e vou levá-lo ao Senado. Vou levar no Jaques e trabalhar para esse cara ficar. A gente tem que trabalhar junto nisso. Ele é muito ponta firme e que bom que ele gosta de você (…) Brinquei com ele também e falei: ‘Olha, ele é o filho que o senador… Quem mexer com esse menino aí tá fudido’”, afirmou Soares a Vorcaro na sequência da conversa.
“Vamos fazer acontecer. Vou falar com a minha turma”, completou o banqueiro.
 
“Por vc, irmão. Toca de um lado, eu toco do outro”, finalizou o advogado.
 
No dia 20 de maio deste ano, Lobo passou por sabatina na CAE e foi aprovado em plenário com 31 votos a favor e 13 contra.
 
— Eu saúdo também o senador Otto Alencar, que era presidente da CAE na minha sabatina como diretor e sempre foi muito atencioso com a CVM — disse Lobo ao discursar no colegiado.

A CVM e o caso Master

Como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, ao assumir interinamente no ano passado, Lobo anulou um voto de Nascimento que contrariava os interesses do Master em um processo. A área técnica da CVM apontou que fundos com a participação do conglomerado de Vorcaro compraram ações de uma empresa de modo a elevar o valor de mercado dela e, consequentemente, inflar o patrimônio do banco.

A decisão estava caminhando para uma oferta pública de ações, o que desagradava à instituição de Vorcaro, e foi alterada a partir do posicionamento de Lobo. Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, ele defendeu a posição e disse que a decisão anterior criaria uma “jurisprudência que iria trazer um distúrbio para o mercado”.

Em nota, Lobo acrescentou que a CVM aplicou multas de R$ 200 milhões ao conglomerado do Master, dos quais R$ 20 milhões “diretamente” a Vorcaro. Os processos foram concluídos no início do mês, depois que as fraudes já eram conhecidas. O presidente da autarquia afirmou que “outras denúncias e suspeitas” envolvendo o Master estão sob análise da área técnica.
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