Politicaria é um termo pejorativo que define a prática da política voltada para interesses particulares, mesquinhos ou clientelistas. É o famoso “toma lá, dá cá” ou a troca de favores em benefício próprio.

As consequências do 

seu voto

Presidente Lula precisa vetar projeto que reduz Floresta Nacional do Jamanxim

Observatório do Clima alerta para impactos da decisão do Congresso sobre a unidade de conservação do Pará; outras 11 propostas atacam áreas de proteção ambiental pelo país

Por Solange A. Barreira | Observatório do Clima

21/07/2026

Presidente Lula precisa vetar projeto que reduz Floresta Nacional do Jamanxim
Área desmatada ilegalmente na Flona do Jamanxim, no Pará, em 2009. Foto: ANTONIO SCORZA / AFP

Bastaram cerca de dez minutos para o Senado desmantelar a proteção de 486 mil hectares da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, na última quarta-feira (15). O PL 2.486/26 avançou sem debates, repetindo a aprovação relâmpago que a Câmara realizou em maio, durante a Semana do Agro, e colocando uma área equivalente a 3,5 vezes o município do Rio de Janeiro sob risco. Diante dos impactos que podem ser causados pela manobra do Congresso, as organizações que compõem a rede do Observatório do Clima pedem ao Executivo que vete o projeto de lei. 

A Flona do Jamanxim foi instituída em 2006 dentro do pacote de compensações da BR-163. Desde então, 86,6 mil hectares foram desmatados e ocupados ilegalmente para exploração econômica, segundo nota técnica elaborada por Apib, ISA e WWF-Brasil. “O padrão geométrico observado das áreas desmatadas ao longo desses anos evidencia a ocupação de grandes áreas rurais contínuas, e não de pequenos produtores de agricultura familiar”, diz a análise. O texto aprovado na semana passada permite, portanto, a regularização fundiária pelos invasores do agro e deixa vulneráveis outros 400 mil hectares adicionais.  

“A aprovação do PL do Jamanxim usa a justificativa do pequeno produtor para premiar  a bandalheira da invasão de terras públicas feita pela grilagem”, afirma Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima. “Não dá para alcançar a meta de desmatamento zero acabando com as áreas protegidas, principal instrumento de proteção do patrimônio natural do Brasil. O veto a este PL é a defesa do legado ambiental que o presidente Lula construiu nos últimos anos”, conclui. 

O modo de operação dos parlamentares está cada vez mais agressivo e perverso. Na Câmara, o PL 2.486 foi apresentado por Isnaldo Bulhões Jr. (MDB- AL) em 19 de maio passado. José Priante (MDB-PA) se manteve na relatoria, numa das tramitações mais rápidas da atual legislatura na Câmara – menos de 24 horas. 

No Senado, o atropelo foi igualmente acelerado: Jader Barbalho (MDB-PA) ficou com a relatoria, propôs regime de urgência na terça-feira passada e conseguiu incluir o PL como item de pauta na quarta, repetindo a estratégia da Câmara. Durante o jogo da Copa do Mundo 2026 que levou a Espanha à final, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), despachou a agenda ambiental, com votação simbólica do texto em poucos minutos.

Na prática, o projeto transforma 40% da área protegida da Flona do Jamanxim em Área de Proteção Ambiental (APA), uma categoria de Unidade de Conservação (UC) mais flexível quanto ao uso do solo e compatível com a existência de propriedades privadas.

Onze ameaças à vista

Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) a pedido do OC mostra que as áreas protegidas do Brasil, considerando todas as categorias, armazenam 19,4 bilhões de toneladas de carbono (19,4 gigatoneladas). Esse estoque equivale a 33 anos de emissões de gases de efeito estufa do país, no ritmo de emissão anual atual (2,145 gigatoneladas de CO2e em 2024). O dado reforça a urgência de garantir proteção legal a esses territórios para tentar frear o desmatamento –  principal vetor das emissões brasileiras – e (tentar) evitar maiores danos das mudanças climáticas. 

Na contramão dessa lógica, outras 11 propostas legislativas que tramitam no Congresso buscam reduzir, impedir a criação ou simplesmente extinguir áreas de proteção ambiental. Há até um PL para alterar o próprio Sistema Nacional Unidades de Conservação:

  • PL nº 4.245/2019 – modifica o regime de proteção da Reserva Extrativista Prainha do Canto Verde, no Ceará;
  • PL nº 2.381/2021 – pretende alterar a categoria da Reserva Extrativista de Canavieiras, na Bahia, transformando-a em Área de Proteção Ambiental;
  • PL nº 2.460/2024 – cria obstáculos à instituição de novas unidades de conservação e condiciona sua criação à homologação pelo Congresso Nacional;
  • PL nº 849/2025 – propõe reduzir a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, em Santa Catarina, retirando mais de 30 mil hectares de sua área protegida;
  • PL nº 6.617/2025 – altera o Sistema Nacional de Unidades de Conservação para retirar do Poder Executivo a competência hoje exercida na criação de unidades federais;
  • PDL nº 171/2026 – na Câmara dos Deputados, busca sustar o decreto que amplia a Estação Ecológica de Taiamã no Pantanal;
  • PDL nº 112/2026, no Senado, e PDL nº 106/2026, na Câmara dos Deputados, pretendem sustar o decreto de criação do Parque Nacional e da Área de Proteção Ambiental do Albardão, no Rio Grande do Sul;
  • PL nº 1083/2026, na Câmara dos Deputados, e  PL nº 3113/2025, no Senado Federal, propõem reduzir e recategorizar parte do Parque Nacional do Itatiaia para Monumento Natural do Vale do Rio Campo Belo, flexibilizando a proteção da unidade;
  • PL nº 1.704/2026 – estabelece novos condicionantes para a criação de unidades de conservação, ampliando as restrições ao processo de instituição dessas áreas protegidas. 

 

“Nos últimos anos, o Congresso Nacional vem investindo pesado na destruição das leis que protegem clima e meio ambiente. Os ataques às terras indígenas e às unidades de conservação têm ganhado força nesse sentido. O Congresso se reinventa a cada dia para provocar destruição. É um tratoraço atrás de outro, sem debates, sem pudores. Os eleitores precisam estar atentos a isso na hora de votar em outubro”, afirma Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.

Notícia anterior
Próxima notícia

Deixe seu comentário

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
0 0 votos
Classificação do artigo
logo-politicaria-7-vazado

As consequências do seu voto

© 2026 Criado por AquiTem! Internet

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x