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Presidente de autarquia do Governo do Estado é preso em operação sobre desvio de R$ 86 milhões

Ex-procurador geral do Estado, Marcelo Lopes da Silva, também está entre os presos; agentes cumpriram ainda nove mandados de busca e apreensão

Por Vera Araújo e João Vitor Costa | O Globo

09/07/2026

Presidente de autarquia do Governo do Estado é preso em operação sobre desvio de R$ 86 milhões
Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do Instituto Rio Metrópole, após ser preso — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Rio de Janeiro – Um esquema de desvio de recursos públicos no Instituto Rio Metrópole (IRM) — órgão do governo do Rio que deveria estabelecer políticas públicas conjuntas para os municípios da Região Metropolitana fluminense em áreas como mobilidade e saneamento — foi alvo de uma operação do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf) do Ministério Público do Rio (MPRJ) nesta quinta-feira. Ao todo, 11 pessoas foram denunciadas pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva, fraude em licitação e contratações, além de lavagem de dinheiro. Seis mandados de prisão foram cumpridos, além de outros nove de busca e apreensão, em endereços na capital, em São Gonçalo e em Teresópolis. Entre os presos, estão Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do IRM, e Marcelo Lopes da Silva, atual procurador-geral da autarquia e ex-procurador-geral do Estado, além de ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.

Na denúncia, o Ministério Público afirma que o Instituto Rio Metrópole foi capturado por uma organização criminosa e transformado em uma máquina de desvio de dinheiro público. Segundo a acusação, presidente, diretores, procurador e servidores ocuparam cargos estratégicos para fraudar licitações, dar aparência de legalidade aos contratos, impedir a fiscalização e garantir o fluxo de recursos desviados, convertendo uma autarquia estadual criada para planejar políticas públicas em um “instrumento de enriquecimento privado”.

Outras investigações prosseguem por parte do MPRJ, que apura outros contratos envolvendo a autarquia.

'Antros de corrupção' e 'caixa de gordura' depois do 'fundo do poço' do RJ

Em entrevista coletiva, o procurador-geral de Justiça do Rio, Antônio José Campos Moreira, destacou que o esquema é um retrato dos “antros de corrupção” criados dentro das estruturas do governo do estado.

— Isso talvez explique a situação de dificuldade financeira pela qual o nosso estado passa há décadas: inúmeras estruturas do Estado, órgãos que deveriam prestar serviços ao cidadão, foram cooptados por delinquentes e marginais — afirmou Moreira.

O procurador adotou a mesma linha mencionada pelo juiz Marcello Rubioli — da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa, do Tribunal de Justiça do Rio — na decisão que determinou a expedição dos mandados de prisão aos alvos da ação desta quinta-feira. O magistrado destacou que há “aparelhamento espúrio do estado, sangria das verbas públicas, apadrinhamentos e toda sorte de ações donairosas que levaram o mesmo à bancarrota”.

Ainda no documento, de mais de 160 páginas, Rubioli foi além e tratou como “essencial” que as instituições atuem para “dedetizar e sanitizar” o Rio. “É dizer que o Estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura.”

MPRJ aponta nepotismo na família Knoploch

Um dos denunciados é Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos do IRM e integrante da Comissão Técnica de Licitação, apontado como articulador do direcionamento das licitações em favor das empresas contratadas. Sua função era a de coordenar o planejamento estratégico e a elaboração de estudos e projetos metropolitanos.

Presidente de autarquia do Governo do Estado é preso em operação sobre desvio de R$ 86 milhões
Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor do Instituto Rio Metrópole, preso nesta quinta-feira — Foto: Reprodução / TV Globo

Preso nesta manhã, ele é pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL) — que não é alvo da operação. Segundo o procurador-geral de Justiça do Rio, até o momento não há qualquer indicativo de participação direta ou indireta do parlamentar no esquema.

Mas o que a denúncia do MPRJ aponta é que outro alvo de mandado de prisão nesta quinta-feira, Amanda Íthala Santos da Paschoa — que ocupa cargo comissionado no IRM desde 2020 — é nora de Maurício Knoploch. Para o Ministério Público, o vínculo familiar (citado como “favorecimento indevido na ocupação de função pública estratégica”) entre os dois “viola expressamente” o decreto que proíbe o nepotismo na administração pública estadual.

Cerca de R$ 86 milhões movimentados: 'Não faz sentido, os objetos não casam'

De acordo com a denúncia apresentada à 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Capital, os acusados utilizaram contratos firmados pelo IRM entre julho de 2022 e maio de 2026 para desviar recursos. O esquema, afirma a denúncia, movimentou R$ 86,28 milhões. Segundo o Ministério Público, valores pagos a duas empresas contratadas eram posteriormente transferidos para o Brazilian Institute of Organics (Instituto BIO), entidade sem estrutura operacional compatível, de onde o dinheiro era sacado em espécie.

— A gente teve contratos fraudulentos que foram celebrados com o Instituto Rio Metrópole, com fraude tanto na licitação quanto na fiscalização da execução dos contratos. Na medida que dois membros da organização criminosa eram responsáveis pela fiscalização desses contratos. E depois, posteriormente, houve a celebração de contratos fictícios entre essas empresas, que haviam celebrado contratos com o IRM, com o Instituto BIO — explicou Roberta Jorio, promotora de Justiça do Gaesf/MPRJ.

A promotora tratou o contrato com o Instituto BIO como “inteligível”, já que “não é capaz de compreender o objeto do contrato”.

— Era para a consultoria para hidrovias de uma ONG em Teresópolis cuja diretora-presidente até data recente recebia Bolsa Família. Essa é a realidade, uma diretora-presidente advogada, sem nenhuma formação na área, que celebrava contratos com essas empresas.

Nas redes sociais, o Instituto Bio é apresentado como escola de BioCulinária que atua na formação de biochefs — o que causou “perplexidade” nos integrantes do MPRJ.

— Não faz sentido, e a perplexidade é de todos, que um instituto de desenvolvimento metropolitano tenha contrato com uma ONG desse tipo, os objetos não casam. O que chama ainda mais a atenção para a necessidade de revisão desses contratos. Foi um descortinar constante de surpresas para a gente — explicou Delcio Alonso, coordenador do Gaesf/MPRJ.

O MPRJ requereu e obteve a prisão preventiva dos agentes públicos identificados como integrantes do esquema. Segundo a denúncia, Didê, que é ex-presidente da Câmara de São João de Meriti, chefiava o núcleo de servidores investigado, autorizando contratações, firmando contratos e controlando pagamentos. Fontes ouvidas pelo GLOBO atribuem sua indicação ao deputado federal Julio Lopes (PP).

O que é o IRM? Até o Ministério Público desconhecia

O Instituto Rio Metrópole é uma autarquia vinculada ao governo estadual responsável por executar as políticas e projetos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Dos 92 municípios fluminenses, 22 estão sob seu guarda-chuva. Mesmo com uma função importante — que seria de planejar, coordenar e desenvolver projetos de interesse da região, especialmente nas áreas de mobilidade urbana, saneamento, habitação, meio ambiente, desenvolvimento metropolitano e tecnologia — a instituição era desconhecida até dos integrantes do Ministério Público.

— Essa investigação é uma constante descoberta de fatos novos. A primeira foi a apresentação do instituto em si, que a maioria da população desconhecia a sua existência; em segundo, tentar definir o objeto de atuação, que até agora não conseguimos determinar; em terceiro, conseguir concatenar o motivo pelo qual determinados contratos foram realizados — completou Delcio Alonso.

Em 2024, a Coppe/UFRJ, por exemplo, realizou um estudo em que buscava soluções para tornar sustentável o sistema de transporte fluminense. Na época, uma das medidas necessárias apontada pela instituição era a criação de uma autoridade metropolitana para, entre tantas medidas, incentivar o usuário a usar o transporte público.

Esse poderia ser o papel do IRM, criado em 2018 e implementado no ano seguinte. Em outros locais, órgãos equivalentes têm atuação importante. No Espírito Santo, por exemplo, o Conselho Metropolitano de Desenvolvimento da Grande Vitória (Comdevit) foi criado em 2005: com reuniões anuais, o órgão reúne representantes do governo estadual e busca justamente o desenvolvimento de projetos de interesse comum da Região Metropolitana capixaba.

Em Nova York, por sua vez, há a Metropolitan Transportation Authority (MTA), que unifica os serviços de transporte daquela Região Metropolitana. No Rio, o IRM, oficialmente, funcionaria como braço técnico e executivo do Conselho Deliberativo da Região Metropolitana, com a função de transformar em ações concretas as decisões tomadas pelo colegiado, que reúne representantes do estado e dos municípios metropolitanos.

Quem são os denunciados presos

  • Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do IRM e ex-presidente da Câmara de São João de Meriti, que chefiava o núcleo de servidores investigado, autorizando contratações, firmando contratos e controlando pagamentos
  • Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos do IRM e integrante da Comissão Técnica de Licitação, apontado como articulador do direcionamento das licitações em favor das empresas contratadas
  • Franquis Dias Nepomuceno, diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM e delegado da Polícia Civil, que atuava como ordenador de despesas e exercia o controle de fato do grupo RioForte, responsável pela escolta armada do dinheiro
  • Marcelo Lopes da Silva, procurador do Estado então à frente da Procuradoria-Geral do IRM, acusado de emitir os pareceres que deram cobertura jurídica às contratações e ao reajuste irregular do contrato. Ele é ex-procurador-geral do Estado e ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico na gestão Wilson Witzel
  • Caroline Soares Barros, que acumulava as funções de fiscal de contratos do IRM e presidente do Instituto BIO — a entidade de fachada por onde os recursos passavam antes de serem sacados em espécie
  • Amanda Íthala Santos da Paschoa, que a sucedeu na fiscalização e atestou a execução dos contratos, respaldando os pagamentos. Ela é nora de Maurício Knoploch e cunhada de Alexandre Knoploch

 

Em relação aos demais denunciados, a Justiça aplicou medidas cautelares diversas da prisão, entre elas, o monitoramento eletrônico, o comparecimento periódico em juízo e a proibição de se ausentarem do país. Também está vetado o contato com testemunhas. São eles:

  • Leilson de Souza Nepomuceno
  • Gerson Luís de Araújo Rodrigues
  • Hélio Augusto Machado Pessôa
  • Roberto Accioly Peotta
  • Roberto Peotta

 

Segundo a denúncia, eles integravam a organização criminosa na condição de particulares que davam suporte à engrenagem do esquema. Hélio e Gerson eram representantes da Engeconsult, e Roberto Accioly Peotta e Roberto Peotta, da R. Peotta. Ambas as empresas eram contratadas pelo IRM e, segundo o MPRJ, repassavam os recursos públicos ao Instituto BIO. Já Leilson de Souza Nepomuceno estava à frente da RioForte, incumbida da escolta armada do dinheiro sacado em espécie.

'Mulher da mala'

De acordo com a denúncia, Caroline Soares Barros realizou 13 saques em espécie entre maio de 2025 e janeiro de 2026, que somaram R$ 3,025 milhões, incluindo duas retiradas de R$ 500 mil cada. O MP afirma que, após receber os repasses na conta do Instituto BIO, ela transferia quase todo o valor para sua conta pessoal e, dias depois, sacava o dinheiro em agências bancárias no Rio e em Teresópolis.

Na denúncia, os promotores a descrevem como a “mulher da mala” por ser, segundo a acusação, a responsável por converter os recursos públicos em dinheiro vivo e transportá-los sob escolta armada para destino desconhecido, dificultando o rastreamento dos valores.

Ex-procurador-geral preso ignorou parecer que apontou irregularidades

Um dos presos é Marcelo Lopes da Silva, que atuava como procurador-geral do IRM. Vinculado à Procuradoria do Estado desde 1998, ele já foi nomeado até como procurador-geral do Estado na gestão de Wilson Witzel, cadeira que ocupou entre 2019 e 2020. O advogado deixou o posto em junho de 2020, quando sucedeu Lucas Tristão como secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.

Presidente de autarquia do Governo do Estado é preso em operação sobre desvio de R$ 86 milhões
Marcelo Lopes da Silva, procurador do estado e ex-procurador-geral do IRM — Foto: Reprodução

Segundo o Ministério Público, o procurador acobertava a operação criminosa, dando uma “roupagem lícita a atividades que não tinham objeto pertinente”, conforme apontado por Delcio Alonso.

— Um dos fatores chamou a atenção especificamente: por uma obra do divino, o procurador se afastou, de férias. E foi substituído por outra servidora, que, analisando corretamente o comportamento tanto da autarquia, quanto das pessoas jurídicas contratadas, apontou a irregularidade do objeto contratado. Na sequência, no retorno das férias, esse parecer foi ignorado e simplesmente foi substituído por outro que dava valia àquilo que a autarquia pretendia fazer — afirmou o coordenador do Gaesf, que tratou a situação como “gritante”.

A promotora Roberta Jorio, por sua vez, detalhou que o envolvimento de promotor no esquema “ficou muito claro” a partir desse atropelo ao parecer que havia sido emitido nas suas férias.

Governo encontrou irregularidades

Antônio José Campos Moreira — que reconheceu a necessidade de se “fazer uma faxina” em algumas estruturas do Estado — também destacou a integração entre o Ministério Público e o governo do estado durante a gestão interina do desembargador Ricardo Couto. Em nota, o Governo do Estado destacou que constatou “indícios de irregularidades nos contratos” do IRM, “por meio de uma auditoria realizada pela Controladoria Geral do Estado e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI)”.

O procurador-geral pontuou que a investigação do MPRJ já havia começado antes de o Poder Executivo fluminense encaminhar documentação referente ao IRM. O Palácio Guanabara, por sua vez, destaca que assim “que os relatórios foram concluídos, o Governo do Estado encaminhou formalmente o material ao Ministério Público”, que “aprofundou a apuração, reuniu as provas necessárias e solicitou as medidas judiciais cumpridas nesta quinta-feira”.

“É importante destacar que o Instituto Rio Metrópole é uma autarquia cuja presidência possui mandato fixo de quatro anos. Diferentemente de cargos de livre nomeação e exoneração, a atual gestão foi nomeada na administração anterior e tem mandato até o final de dezembro de 2026”, afirma a nota do governo.

— Hoje é um start para a gente ter noção do que virá para a frente. Isso (auditoria) está acontecendo em todos os órgãos do Poder Executivo. Não que a gente esteja encontrando essas irregularidades em todos os órgãos, mas todos os órgãos, por determinação do governador, estão sendo auditados — observou Roberto Leão, à frente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que pontuou que indícios de irregularidades encontrados na administração fluminense estão sendo encaminhados “de forma sistemática” ao MPRJ.

Sobre o delegado Franquis Dias Nepomuceno, um dos presos da operação, a Polícia Civil do Rio ressalta que a Corregedoria-Geral instaurou Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos.

“A Polícia Civil acompanha o caso de perto e reafirma que não compactua com qualquer desvio de conduta de seus integrantes. A instituição mantém rígidos mecanismos de controle interno e colabora permanentemente com os órgãos de fiscalização e persecução, adotando todas as medidas cabíveis para apurar eventuais irregularidades”, diz em nota.

Já a Engeconsult afirmou que “desconhece o teor das investigações e qualquer documento e informação a elas relacionados”, além de negar “a prática de qualquer ato irregular”. A empresa pontua que sempre “primou pelo cumprimento das leis e boas práticas de governança” e que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. O GLOBO não encontrou os demais citados até a última atualização desta reportagem.

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