Investigado por atuação para o PCC usou heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de SP, em 2022

Homem está preso por tráfico de drogas e é acusado de lavar dinheiro para a facção criminosa

Por Sérgio Quintella e Aline Ribeiro | O Globo

28/04/2026

Investigado por atuação para o PCC usou heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de SP, em 2022
Fachada do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi — Foto: Governo de São Paulo

São Paulo – A Polícia Civil de São Paulo apura a utilização do heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, por um empresário investigado de lavar dinheiro para o PCC. O caso ocorreu em março de 2022, durante o último mês da gestão de João Doria, então no PSDB.

O local foi usado pelo empresário João Gabriel de Melo Yamawaki, que está preso desde fevereiro deste ano por tráfico de drogas. Os investigadores descobriram, por meio de quebra de sigilo telemático e apreensão de celulares, que quem conseguiu a autorização para o pouso no Bandeirantes foi o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula, também detido e suspeito de ser articulador político da organização criminosa.

Após descer no heliponto, Yamawaki foi ao estádio do Morumbi, a menos de um quilômetro da sede do governo, para acompanhar um jogo do São Paulo contra o Palmeiras.
 
“O que resta saber é se as informações dadas acerca dos motivos para pouso da aeronave foram minimamente verificadas, pois é extremamente grave que com um simples pedido e informando apenas que uma “delegação do Japão” estaria embarcada em um helicóptero, consiga-se pousar tão facilmente dentro do Palácio do Governo. É necessário ainda verificar se as informações não foram imediatamente auditadas/verificadas, e se houve conivência de um ou mais servidores públicos que trabalham no Palácio dos Bandeirantes. Surpreendeu-nos ainda a rapidez com que todo esse trâmite se desenvolveu, já que as tratativas se iniciaram as 8h58 e a autorização deferida as 14h23”, diz um trecho do inquérito que trata do caso, obtido pelo GLOBO.
 
Questionado sobre os detalhes da utilização do espaço, sobretudo porque os dados ficam armazenados, o Palácio dos Bandeirantes enviou a seguinte nota: “O caso mencionado ocorreu em março de 2022, portanto, sem qualquer relação com a atual gestão. A autorização para pousos e decolagens no heliponto do Palácio dos Bandeirantes segue critérios técnicos e operacionais determinados pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC)”.
 
Procurado, o ex-governador João Doria não quis se pronunciar. Segundo pessoas próximas a ele, as autorizações para pouso e decolagem no palácio nem chegam ao governador, o que é feito pela Casa Militar. A assessoria do Palácio dos Bandeirantes, sob gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), não respondeu até a conclusão da reportagem.

Operação Contaminatio

A Polícia Civil de São Paulo prendeu, na segunda-feira (27), seis integrantes de uma organização criminosa suspeita de se infiltrar em prefeituras para lavar dinheiro obtido principalmente com o tráfico de drogas. Batizada de Operação Contaminatio, a ação também cumpriu 22 mandados de busca e apreensão e resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 513 milhões em bens e ativos ligados aos investigados.
 
As diligências são conduzidas pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes e ocorrem simultaneamente em São Paulo, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas, Ribeirão Preto e Santos, além de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Brasília e Londrina.
 
Segundo a polícia, a investigação é um desdobramento da Operação Decurio, deflagrada em agosto de 2024. Na ocasião, foram apreendidos dispositivos eletrônicos que, após análise, “revelaram um esquema sofisticado de movimentação financeira ilícita”. A partir dos dados coletados e de relatórios de inteligência financeira, os investigadores identificaram uma estrutura voltada não apenas ao tráfico de drogas, mas também à lavagem de dinheiro.
 
De acordo com a apuração, a facção criminosa Primero Comando da Capital (PCC) teria criado um chamado “núcleo político”, destinado a acessar recursos públicos e ampliar seus negócios. Entre as estratégias identificadas estariam o apoio e o financiamento de candidaturas alinhadas aos interesses da organização.
 
A polícia também apontou o envolvimento de pessoas ligadas a administrações municipais, entre elas ao menos uma servidora comissionada que manteria relação com um integrante de alto escalão do grupo criminoso.
 
– A gente verificou que eles, além de ampliarem o braço político deles, os contatos políticos, eles queriam usar a estrutura financeira que eles tinham aí, essa fintech, para poder entrar nos municípios de interesse e fazer a gestão dos recursos públicos, para servir como se fosse um meio de pagamento desses municípios para recebimento de tributos, recebimento de taxas, gerenciar alguns programas como nota fiscal premiada que alguns municípios têm, assim como alguns estados. Então essa era a ideia deles, fazer a lavagem de dinheiro do crime dentro dessas prefeituras – afirma o delegado Fabricio Intelizano, da Delegacia Seccional de Mogi das Cruzes.

Quem são João Gabriel e Thiago de Paula

João Gabriel de Melo Yamawaki é apontado pelos investigadores como um dos principais operadores financeiros do PCC. Preso em fevereiro no Tocantins, ele estava foragido da polícia paulista. Yamawaki teria criado um banco digital chamado 4TBANK, com sede em um prédio no centro de Palmas, capital do estado em que foi preso. De acordo com as investigações, a instituição realizava movimentações financeiras ilegais que podem chegar a R$ 8 bilhões. Além disso, João Gabriel também estaria envolvido na venda direta de drogas. Sua defesa não foi localizada.
 
Ex-vereador de Santo André, no ABC, Thiago Rocha de Paula é apontado como o principal articulador político do PCC. Sua ideia, ainda de acordo com os investigadores, seria infiltrar o grupo criminoso em prefeituras, por meio de contratos e convênios. Em um pedido de liberdade feito ao Superior Tribunal de Justiça, em janeiro do ano passado, a defesa afirmou que Rocha não possui relação com a suposta quadrilha. “Seu nome é apenas inserido naquilo que se denominou núcleo 5 – atividades políticas e/ou vínculos junto à administração pública. Tampouco argumenta-se qual seria a real função de cada uma das muitas medidas adotadas. Ora, o paciente desafortunadamente se encontra listado no rol de pessoas investigadas e contra ele pesam graves medidas que foram aplicadas indiscriminadamente, em cascata”, disse sua defesa, na ocasião em que a demanda foi deferida, ou seja, Rocha de Paula foi colocado em liberdade.
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