Politicaria é um termo pejorativo que define a prática da política voltada para interesses particulares, mesquinhos ou clientelistas. É o famoso “toma lá, dá cá” ou a troca de favores em benefício próprio.

As consequências do 

seu voto

EMAE, Sabesp e Master: voto de Otto Lobo beneficiou fundos ligados a Vorcaro após banqueiro articular apoio à presidência da CVM

Decisão que afastou a obrigação de oferta pública por ações da Ambipar, durante privatizações de Tarcísio de Freitas na EMAE e Sabesp, ocorreu 10 dias após Vorcaro trocar mensagens prometendo ajudar Lobo a se manter na presidência da CVM.

Por Plínio Teodoro | Fórum

22/09/2026

EMAE, Sabesp e Master: voto de Otto Lobo beneficiou fundos ligados a Vorcaro após banqueiro articular apoio à presidência da CVM
Otto Lobo, Tarcísio na privatização da Sabesp, e Daniel Vorcaro (Geraldo Magela Ag. Senado / Divulgação Governo SP / Divulgação Master)

O então presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Lobo, deu o voto decisivo para afastar a obrigação de realização de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) das ações da Ambipar, em 29 de julho de 2025. A decisão ocorreu 10 dias depois de mensagens analisadas pela Polícia Federal mostrarem que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, articulava apoio político para garantir a permanência de Lobo na presidência da autarquia.

Em troca de mensagens, Vorcaro afirmou que iria conversar com seus aliados: “Vamos fazer acontecer. Vou falar com a minha turma”. As informações constam de documentos levantados pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, no site da CVM.

O Fórum Investiga entrou enviou perguntas por e-mail pedindo o posicionamento até a manhã desta terça-feira (22) à CVM, Otto Lobo, Daniel Vorcaro e Banco Master, Nelson Tanure, Trustee DTVM, Tércio Borlenghi, Ambipar, Sabesp, EMAE, Carlos Piani e Grupo Equatorial. Até o momento, não foram enviadas respostas. O espaço segue aberto.

A CVM é a autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda responsável por fiscalizar e regulamentar o mercado de capitais, incluindo companhias abertas, ações, fundos de investimento e debêntures. No caso da Ambipar, estava em discussão se o controlador Tércio Borlenghi e fundos administrados pela Trustee DTVM, ligado ao ecossistema do banco Master, haviam atuado em conjunto para adquirir ações e reduzir a quantidade de papéis disponíveis no mercado, o que poderia obrigar a realização de uma OPA.

Na sessão de 29 de julho, 10 dias após Vorcaro prometer “fazer e acontecer” para manter o interino no comando da comissão, houve empate: Otto Lobo e João Accioly votaram contra a OPA, enquanto Marina Copola e João Pedro Nascimento votaram a favor. Como presidente interino, Lobo utilizou o voto de qualidade para desempatar a decisão e afastar a obrigação de oferta aos acionistas minoritários. A cronologia e o resultado constam do pedido de reconsideração apresentado pela Esh Capital, a que o Fórum Investiga teve acesso.

No voto apresentado no processo, Lobo afirmou: “Não enxergo provas concretas da existência de uma relação de subordinação e dependência da Trustee e, por consequência, dos Fundos com relação ao controlador da Ambipar, Tercio Borlenghi”.

E na conclusão, declarou: “não restou comprovado que o Controlador, a Trustee e os Fundos atuaram em conjunto durante as aquisições ocorridas entre junho e agosto de 2024, pelo que afasto a obrigatoriedade da OPA por Aumento de Participação”.

A posição de Lobo contrariou o entendimento da Superintendência de Registro de Valores Mobiliários (SRE), área técnica da autarquia, e do ex-presidente da CVM, João Pedro Nascimento, que deixara o comando da CVM por “motivos pessoais” no dia 18 de julho, quando Otto Lobo assumiu a cadeira e teria recebido, no dia seguinte, o apoio do dono do Master para permanecer no cargo. Em seu voto, Nascimento concluiu que havia elementos suficientes para caracterizar a atuação coordenada entre o controlador da Ambipar e os fundos envolvidos.

“Entendo que a SRE foi capaz de reunir elementos fáticos robustos e convergentes, que demonstram a atuação conjunta do Controlador e dos Fundos”, afirmou Nascimento em seu voto.

A estrutura que conectou Ambipar, EMAE, Master e Tanure

A origem da controvérsia está na privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), realizada pelo governo de Tarcísio de Freitas em abril de 2024. O vencedor do leilão foi o Phoenix Fundo de Investimento em Participações (Phoenix FIP), ligado ao empresário Nelson Tanure e administrado pela Trustee DTVM.

Para financiar a operação, a Phoenix S.A. emitiu debêntures. Como garantia, foram utilizadas ações da Ambipar pertencentes ao Esna FIP, administrado pela Trustee, e ao próprio Tércio Borlenghi, controlador da empresa.

EMAE, Sabesp e Master: voto de Otto Lobo beneficiou fundos ligados a Vorcaro após banqueiro articular apoio à presidência da CVM
Do Master à Sabesp: a cadeia de fundos, garantias e decisões

O voto de João Pedro Nascimento descreve a estrutura: “O Phoenix FIP, veículo ligado a Nelson Tanure, era gerido pela Trustee”.

O documento também registra que o Banco Master fazia parte do mesmo grupo econômico da Trustee e era cotista direto do Esna FIP. Em setembro de 2024, o Master deixou de figurar como cotista do fundo, que passou a ter o Ilha de Patmos FIM, veículo ligado a Nelson Tanure, como titular.

Segundo o voto: “a Trustee era do mesmo grupo econômico do Banco Master S.A., que era cotista direto do Esna FIP”.

Na mesma operação, o Ilha de Patmos recebeu um aporte de R$ 700 milhões, utilizado para adquirir as cotas do Esna FIP. O documento aponta que os papéis da Ambipar foram avaliados na operação por R$ 39,33 cada, enquanto a cotação de mercado variava entre R$ 63 e R$ 69, representando um desconto aproximado de 40%.

O voto também aponta que o Banco Master teria obtido vantagens econômicas com a operação, incluindo um retorno estimado de R$ 296 milhões e a valorização patrimonial de fundos cujo beneficiário final era o banco.

A análise da CVM identificou ainda que as ações da Ambipar valorizaram mais de 863% entre 31 de maio e 19 de agosto de 2024. Para a área técnica, a valorização aumentou a atratividade dos papéis utilizados como garantia na operação de financiamento da EMAE.

O presidente da CVM à época concluiu: “Há claros indícios da existência de atuação em conjunto entre Tércio Borlenghi, Trustee, Banco Master e Nelson Tanure”.

Nascimento sustentou que a aquisição das ações da Ambipar estava economicamente relacionada à operação da EMAE: “os envolvidos se beneficiaram com a maximização dos respectivos patrimônios investidos na Ambipar e, também, com a redução da quantidade de ações de Ambipar a serem prestadas como garantia na operação da EMAE”.

O voto de Lobo e a disputa sobre a OPA

A área técnica da CVM havia determinado a realização de uma OPA por aumento de participação. Esse mecanismo existe para proteger os acionistas minoritários quando o controlador, pessoas vinculadas ou terceiros que atuem em conjunto adquirem ações em quantidade capaz de comprometer a liquidez dos papéis restantes.

O voto de João Pedro Nascimento acompanhou a área técnica e considerou que os fundos e o controlador haviam atuado de forma coordenada entre junho e agosto de 2024. O documento registra que a aquisição das ações da Ambipar estava relacionada à estrutura de financiamento da EMAE, com garantias cruzadas envolvendo Tércio Borlenghi, Nelson Tanure, Trustee e o ecossistema do Banco Master.

Em sentido contrário, Otto Lobo entendeu que a relação entre os envolvidos não demonstrava subordinação ou dependência suficiente para caracterizar atuação conjunta nos termos da regulamentação. Para ele, a utilização das ações da Ambipar como garantia de uma operação relacionada à EMAE deslocava a finalidade econômica para outra empresa.

Lobo escreveu: “a vinculação, no meu entendimento, deve ser estritamente relacionada ao comportamento e às ações da companhia objeto da OPA, no caso a Ambipar”.

A decisão foi tomada em 29 de julho de 2025, oito dias depois da renúncia de João Pedro Nascimento à presidência da CVM. Lobo, então diretor, assumiu interinamente o comando da autarquia e utilizou o voto de qualidade para desempatar o julgamento.

Em maio de 2026, Lobo foi aprovado pelo Senado para presidir a CVM por 31 votos a 13. Nesta segunda-feira (21), reportagem do jornal O Globo revelou mensagens segundo as quais Vorcaro teria atuado para assegurar sua permanência no cargo, com intermediação do advogado Ciro Soares e contatos com senadores responsáveis pela análise da indicação. Lobo, Vorcaro e os parlamentares citados negaram irregularidades ou favorecimento.

A coincidência temporal entre a articulação política para a permanência de Lobo, a decisão sobre a OPA e os interesses econômicos de fundos relacionados ao Banco Master e a Nelson Tanure integra o conjunto de elementos que passou a ser analisado por órgãos de investigação e controle.

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Privatizações da EMAE e Sabesp por Tarcísio e o elo com Vorcaro

Sabesp, EMAE e a representação no Ministério Público

Uma representação encaminhada ao Ministério Público de São Paulo sustenta que as operações envolvendo Banco Master, Nelson Tanure, Ambipar, EMAE, Sabesp e Equatorial devem ser examinadas como parte de uma estrutura mais ampla de financiamento, aquisição de ativos e circulação de agentes entre empresas e fundos. O documento também menciona a trajetória de Carlos Piani, que passou por posições relacionadas à Ambipar, à Equatorial e à Sabesp.

Em julho deste ano, a Promotoria do Patrimônio Público e Social instaurou uma notícia de fato para tomar providências preliminares sobre a ação que investiga suposto elo com o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, no processo de privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024.

“O objeto ora delimitado consiste em apurar, em caráter preliminar, a existência de elementos mínimos acerca de eventuais atos de improbidade administrativa, lesão ao patrimônio público estadual, violação aos princípios da Administração Pública, frustração da competitividade, deficiência deliberada de diligência administrativa, conflito de interesses ou favorecimento indevido de particulares nos processos de privatização da EMAE, desestatização da SABESP e posterior aquisição do controle da EMAE pela SABESP”, diz o despacho assinada pela promotora Cíntia Marangoni no dia 15 de julho.

No ofício, a promotora pede informações à Sabesp, Emae, Tribunal de Contas do Estado (TCE) e ao governo Tarcísio para iniciar a análise da denúncia feita pelo deputado Antônio Donato (PT-SP), líder do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo (Alesp). Em nota, a Sabesp informou à época que “prestará todos os esclarecimentos solicitados pelo Ministério Público, com absoluta transparência”.

“A atuação desta Promotoria de Justiça deve concentrar-se, nesta fase, na verificação de eventual lesão ao patrimônio público estadual, violação dolosa de deveres funcionais, frustração da competitividade, favorecimento indevido de particulares, conflito de interesses e eventual utilização de entidades submetidas ou anteriormente submetidas ao controle estatal em benefício de determinado núcleo privado”, afirma ainda a procuradora, que deu prazo de 45 dias para o envio das informações.

“Arquitetura complexa envolvendo o Banco Master”

Donato entrou com o pedido de investigação após levantar informações e divulgar um vídeo, em fevereiro, em que revela “a existência de complexa arquitetura financeira envolvendo o Banco Master, com potenciais repercussões sobre o sistema financeiro nacional”.

“Parte dessa estrutura envolve organizações societárias e financeiras relacionadas ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, ao investidor Nelson Tanure e ao empresário Carlos Piani, no contexto de operações vinculadas a processos de privatização no Estado de São Paulo”, diz, na representação que está em análise no Ministério Público.

Segundo Donato, o banco Master, de Daniel Vorcaro, teria atuado intensamente na estruturação e no financiamento de grupos empresariais interessados na privatização da EMAE e da Sabesp.

Após receber doação de R$ 2 milhões do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, em sua campanha ao governo do Estado, Tarcísio de Freitas iniciou seu governo visando as privatizações.

A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix sagrou-se vencedor do leilão das ações estaduais da EMAE, pelo valor aproximado de R$ 1,04 bilhão, superando levemente a proposta da EDF. O fundo foi constituído em 20/03/2024, menos de um mês antes do certame, e teve como principal lastro ações da AMBIPAR.

Segundo Donato, as ações foram infladas em mais de 700% em uma ação estruturada realizada pelo presidente do Conselho de Administração da Ambipar, Carlos Augusto Leone Piani, que ficou no cargo até 24 de setembro de 2024.

Conforme o Parecer Técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o pagamento da aquisição de controle da EMAE foi viabilizado pelo Banco Master, via Trustee, por Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador e controlador da Ambipar, por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A..

Além disso, após ser privatizada, a EMAE elegeu como presidenta Karla Maciel Dolabella, que antes liderava a área de fusões e aquisições do Banco Master. Membro do Conselho de Administração da Light, Karla Maciel renunciou em dezembro de 2025 aos cargos de CEO e de diretora de Pessoas e Sustentabilidade na Emae por “razões de foro pessoal”.

A renúncia aconteceu na esteira das investigações de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e em meio à transferência do controle da EMAE para a Sabesp, em outro movimento recheado de indícios de fraudes.

Sabesp

Em julho de 2024, o governo Tarcísio de Freitas abriu mão do controle da Sabesp vendendo ações de uma das maiores empresas de saneamento do mundo por um valor 44% abaixo do real, segundo especialistas do Observatório Nacional das Águas (Ondas), da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).

“Tarcísio de Freitas privatiza a Sabesp. E quem compra a Sabesp? A Equatorial. Quem era o presidente do Conselho Administrativo da Equatorial? Carlos Piani, que também a acumulava a presidência do conselho administrativo da Ambipar”, diz Donato no vídeo, que originou a ação.

Após deixar a presidência do Conselho da Ambipar, Piani assume, em outubro de 2024, a presidência da Sabesp. E segue no posto até os dias atuais. Na última sexta-feira (8), a Sabesp, agora controlada pela Equatorial, se credenciou também para a privatização da Copasa, empresa estatal de saneamento de Minas Gerais, colocada à venda durante a gestão Romeu Zema.

“Julho a setembro de 2025: Nelson Tanure pega R$ 160 milhões de reais do Caixa da Emae e compra CDBs podres do Banco Master. Outubro de 2025: Tanure não quita o empréstimo com a XP Investimentos que lhe permitiu comprar a Emae. A XP executa a dívida e assume o controle da Emae. Imediatamente depois, a Sabesp privatizada, comandada por Carlos Piani, compra a Emae da XP”, conta Donato.

“Resumindo, Carlos Piani, que no início estruturou uma operação fraudulenta para comprar a Emae, agora fecha o círculo e leva para dentro da Sabesp privatizada a Emae, uma empresa estratégica para gestão dos recursos hídricos do Estado de São Paulo. Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central e esse esquema todo começa a ser investigado. Tarcísio, não adianta esconder, as suas relações com o Banco Master estão todas aqui”, conclui Donato no vídeo.

Na ação, Donato detalha a participação de Zettel, que doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro em 2022.

Segundo a representação, o cunhado de Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha, de André Valadão, foi uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE, envolvendo Nelson Tanure, a AMBIPAR, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM, administradora da rede de fundos pertencentes a esses atores.

“Todos são hoje investigados no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance por lavagem de dinheiro para o PCC e por fraudes financeiras e contábeis”, relata o documento, que inclui um fluxograma sobre o grupo.

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