São Paulo – Uma disputa familiar dentro da realeza política de direita do Brasil explodiu depois que a esposa do ex-presidente preso Jair Bolsonaro atacou seu filho mais velho, Flávio Bolsonaro, que está concorrendo à presidência este ano.
“Seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito duro, me desrespeitou e me tratou mal ao telefone… Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões tomadas pelo partido. Ele disse que eu era novata e não entendia nada de política”, disse ela no vídeo na quarta-feira.
A saga ameaça outro revés para a campanha vacilante de Flávio Bolsonaro, que foi nomeado sucessor por seu pai populista de extrema-direita após o mais velho receber uma sentença de 27 anos por planejar um golpe.
Eduardo Grin, professor de política da Fundação Getúlio Vargas, descreveu o episódio como uma “bomba” para o direitista.
“Isso mostra que a campanha de Flávio Bolsonaro — mesmo no seu núcleo, a própria família — é completamente desunida e fragmentada. Isso revela que a autoridade que seu pai, Jair Bolsonaro, pode exercer nesse processo é limitada, e que a pessoa que realmente controla o jogo político dentro da casa da família hoje é Michelle Bolsonaro”, acrescentou.
“É desastroso para [Flávio] Bolsonaro porque projeta uma imagem dele como um sexista, assim como seu pai, para um eleitorado que ele já lutava para conquistar.”
Flávio chegou a estar com Lula em muitas pesquisas até não faz muito tempo, mas sua estrela caiu após erros, como revelações de que ele pediu dezenas de milhões de dólares a um suspeito de fraude para financiar um filme hagiográfico sobre seu pai.
Antes apelidado de Trump dos Trópicos, Jair Bolsonaro governou a democracia mais populosa da América Latina por quatro anos tumultuados até 2022, adotando posições duras pró-armas e valores tradicionais. Em setembro passado, ele foi considerado culpado de conspirar para permanecer no poder ilegalmente após uma derrota eleitoral para Lula.
Michelle afirmou ser vítima de uma campanha difamatória e sugeriu ligações com aliados de seu enteado.
“Tentei ficar quieta, mas vejo a maldade de alguns que afirmam ser defensores e aliados do meu marido, mas plantam narrativas maliciosas e mentiras descaradas envolvendo meu nome”, disse ela. “O grupo que espalha calúnias — orquestrado por alguém no exterior — continua operando e me atacando todos os dias.”
Outro filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, vive em exílio autoimposto nos EUA. A Suprema Corte do Brasil o condenou a quatro anos de prisão neste mês por cortejar a interferência dos EUA no julgamento do golpe de seu pai.
Flávio deu uma resposta conciliatória ao post de sua madrasta: “Em nenhum momento ofendi ou pretendi ofender Michelle. Se eu fizer isso em algum momento, mais uma vez, peço desculpas”, escreveu ele no X. “Tenho absoluta convicção de que todos temos o mesmo objetivo: o melhor para o Brasil e nos libertarmos da esquerda.”
As turbulências dentro do clã surgem enquanto Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar por motivos de saúde, tenta restaurar a sorte de sua dinastia política.
Um amigo da família disse sobre Michelle: “Ela estava sob muita pressão para participar da campanha, e realmente não queria — então queria defender seu caso, que é bastante fraco.”
Embora Jair Bolsonaro continue sendo o líder supremo dos conservadores brasileiros, sua esposa se destacou como uma importante atriz política. Michelle lidera o ramo feminino do Partido Liberal e é apontada como possível candidata ao Senado. Cristã devota e falante de língua de sinais, ela conta com forte apoio entre as crescentes fileiras de evangélicas do Brasil.
“Minha prioridade agora é cuidar da minha família — do meu marido, que precisa de mim”, ela disse no vídeo. Ela tentou amenizar o confronto na manhã de quinta-feira, dizendo que não tinha “raiva de ninguém”.
“Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada. Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual mau governo”, comentou Michelle, acrescentando: “Vá em paz.”
Reportagem adicional por Beatriz Langella