Pix por Zelle: proposta de Eduardo Bolsonaro expõe ignorância entre soberania pública e interesse privado

Ao sugerir o Zelle "na mesa de negociações" com os EUA, Eduardo Bolsonaro revelou a ignorância na narrativa sobre o Pix. O sistema brasileiro é uma infraestrutura pública, gratuita e universal; o americano é um serviço privado, restrito e mais lento.

Por Plínio Teodoro | Fórum

05/06/2026

Pix por Zelle: proposta de Eduardo Bolsonaro expõe ignorância entre soberania pública e interesse privado
Eduardo Bolsonaro com o pai, Jair, em reunião com Donald Trump na Casa Branca (PR)

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou, em entrevista à rádio TMC na quarta-feira (3) que o Brasil poderia levar o Zelle, sistema de pagamentos norte-americano, à mesa de negociação com os Estados Unidos como argumento para evitar tarifas de 25% anunciadas pelo governo Trump.

A declaração, feita no contexto de relatórios do USTR que criticam o Pix por supostamente prejudicar empresas americanas, gerou reação imediata nas redes sociais e críticas de parlamentares da oposição. Após a repercussão negativa, Bolsonaro recuou, negou ter sugerido a substituição do sistema e mentiu que o Pix teria sido criado por seu pai.

O episódio e a polêmica

Na entrevista à TMC, Eduardo Bolsonaro foi direto: “Os EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como o Zelle. O Pix dos EUA é o Zelle. Então dá para ir para a mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para conversar e botar na mesa isso daí e tentar segurar o ímpeto de retaliação contra qualquer meio que a gente utilize de pagamento”.

A fala ocorreu depois de o USTR, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, publicar relatórios que mencionam o Pix 20 vezes, acusando o Brasil de manter políticas de pagamento eletrônico que “desfavorecem empresas americanas envolvidas no comércio digital ou em serviços de pagamento eletrônico.” O relatório recomendou a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

A repercussão foi imediata e negativa. No dia seguinte, Eduardo publicou um vídeo nas redes sociais em que afirmou: “Eu absolutamente jamais disse isso. Eu desafio o Globo a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito porventura algo nesse sentido”. Na mesma publicação, acrescentou que o Pix “foi criado por Jair Messias Bolsonaro, sem taxas, e assim continuará sendo” — afirmação que não corresponde à realidade histórica do sistema.

A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) respondeu classificando como “nojento ver a disposição dos Bolsonaros de servir os interesses americanos” e defendeu o Pix como “uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulamentada pelo Banco Central do Brasil”, em contraponto ao Zelle, descrito por ela como “um sistema privado, operado por bancos americanos, que cobra taxas.”

O episódio ilustra uma tensão mais ampla: a pressão comercial dos EUA sobre o modelo financeiro brasileiro está sendo usada, por parte do bolsonarismo, não para defender a soberania nacional, mas para questionar uma das políticas públicas de maior alcance popular do país. A fala de Eduardo, independentemente da retratação posterior, abriu espaço para uma discussão que o governo Trump claramente quer estimular.

Pix vs. Zelle: O abismo técnico

A comparação entre os dois sistemas não resiste a um exame técnico básico e revela o grau de ignorância de Eduardo Bolsonaro.

O Pix é operado pelo Banco Central do Brasil, uma instituição pública, e funciona como infraestrutura aberta a qualquer banco, fintech ou instituição financeira autorizada pelo BC. O Zelle, lançado em 2017, é administrado pela Early Warning Services, empresa privada controlada por um consórcio de grandes bancos americanos, entre os quais Bank of America, JPMorgan Chase, Capital One, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo. Quem não tem conta em um banco participante simplesmente não acessa o serviço.

A diferença de velocidade e alcance é igualmente significativa. O Pix é instantâneo por definição regulatória. O Zelle, segundo informações de seu próprio site oficial pode levar minutos para concluir uma transação e, em casos de instabilidade do sistema, horas ou até dias. O Pix é gratuito para pessoas físicas por determinação do Banco Central; no Zelle, a gratuidade depende da política tarifária de cada banco participante, embora pesquisa do terceiro trimestre do ano passado indique que “quase todos” os bancos conveniados não cobram dos consumidores.

Há ainda uma diferença crítica em termos de proteção ao usuário. O Pix conta com o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite acionar o sistema em casos de fraude ou erro. O Zelle, segundo seu site oficial, só permite o cancelamento de uma transação se o destinatário ainda não estiver cadastrado na plataforma: uma vez enviado o dinheiro para um usuário registrado, não há como reverter a operação. Chamar os dois sistemas de equivalentes, como fez Eduardo Bolsonaro, é ignorar diferenças que afetam diretamente a vida financeira de milhões de pessoas.

A origem do Pix: Fatos contra a narrativa

A afirmação de que Jair Bolsonaro “criou o Pix” é desmentida pela própria cronologia oficial do sistema. Os estudos para a criação de um sistema de pagamentos instantâneos foram iniciados pelo Banco Central em 2016, com a estruturação técnica avançando a partir de 2018, durante a gestão Michel Temer. A marca Pix foi lançada pelo BC em fevereiro de 2020, e o sistema entrou em operação em novembro do mesmo ano, já no governo Bolsonaro. Estar na cadeira presidencial no momento do lançamento não equivale a ter formulado a política pública.

A prova mais concreta do distanciamento de Bolsonaro em relação ao sistema ocorreu em 5 de outubro de 2020, exatamente no dia em que as instituições financeiras começaram a cadastrar as chaves Pix dos brasileiros. Questionado por um apoiador sobre a novidade, o então presidente associou o tema a uma medida de aviação civil. Ao ser corrigido, admitiu desconhecimento e disse que ainda iria “conversar com o Roberto Campos Neto” para entender do que se tratava, segundo registros de imprensa da época.

O Pix é resultado de uma agenda de inclusão financeira construída ao longo de anos. A Lei 12.865/2013, aprovada no governo Dilma Rousseff, foi o marco legal que permitiu a regulação dos arranjos de pagamento no Brasil e abriu o caminho institucional para o que viria a ser o Pix. A bancarização da população de baixa renda promovida nos governos Lula criou a base de usuários sem a qual um sistema de pagamentos instantâneos e universal não teria escala. O Pix é obra de servidores do Banco Central, de uma agenda regulatória de longo prazo e de uma política de Estado que atravessou diferentes governos.

Pressão externa e soberania

O incômodo do governo Trump com o Pix não é retórico: o USTR dedicou páginas de seus relatórios ao sistema brasileiro, mencionando-o 20 vezes e criticando especificamente a gratuidade para pessoas físicas e as regras de adesão que tornam o sistema público praticamente universal. Segundo o USTR, o Brasil mantém políticas que “desfavorecem empresas americanas envolvidas no comércio digital ou em serviços de pagamento eletrônico.” A leitura americana é direta: um sistema público, gratuito e de ampla adoção retira espaço de mercado de empresas privadas dos EUA que operam no setor de pagamentos digitais.

A pressão reflete um conflito de modelos. O Pix democratizou o acesso ao sistema financeiro brasileiro, permitindo que pessoas sem histórico bancário realizassem transações digitais sem custo. Esse alcance é exatamente o que incomoda o establishment financeiro americano: uma infraestrutura de Estado que funciona bem e não cobra não deixa espaço para que serviços privados cobrem por algo equivalente. Exigir que o Brasil alinhe seu modelo ao padrão de mercado privado dos EUA é, na prática, pedir que o país abra mão de uma conquista social para beneficiar corporações estrangeiras.

A soberania financeira brasileira está, portanto, no centro do conflito comercial. O Pix não é apenas uma ferramenta de pagamento: é uma infraestrutura de Estado que processa transações 24 horas por dia, sete dias por semana, sem intermediários privados cobrando pedágio. Colocá-lo “na mesa de negociação”, como sugeriu Eduardo Bolsonaro, significa tratar uma política pública consolidada como moeda de troca para satisfazer demandas de empresas americanas que perderam mercado para um sistema mais eficiente e gratuito.

Implicações políticas

O que está em jogo vai além da polêmica de uma entrevista. Substituir o Pix pelo Zelle, ou mesmo abrir concessões regulatórias que enfraqueçam o modelo público, significaria a privatização de um serviço essencial e a introdução de custos em transações que hoje são gratuitas para dezenas de milhões de brasileiros. O Zelle, operado por um consórcio de grandes bancos privados, não tem obrigação de universalidade nem de gratuidade: sua lógica é a do mercado, não a do direito de acesso.

A retórica de Eduardo Bolsonaro expõe uma contradição central do bolsonarismo: o movimento que se apresenta como defensor da soberania nacional e dos interesses do povo brasileiro demonstrou, neste episódio, disposição para negociar uma conquista pública em favor de pressões comerciais externas.

A tentativa de atribuir a criação do Pix a Jair Bolsonaro, feita no mesmo movimento em que se sugeria usá-lo como moeda de troca, revela o quanto a narrativa é instrumental: o Pix é “do Bolsonaro” quando serve à propaganda, e é negociável quando serve ao alinhamento com Washington.

O conflito comercial com os EUA é real, e suas consequências para a economia brasileira são sérias. Mas usá-lo como pretexto para questionar políticas públicas de sucesso é uma escolha política, não uma necessidade técnica. A manutenção do Pix como infraestrutura pública, gratuita e universal é um ponto de disputa que vai além do sistema de pagamentos: é a disputa entre a visão de Estado como indutor do bem-estar coletivo e a visão de mercado desregulado como único organizador da vida econômica. Nesse confronto, a fala de Eduardo Bolsonaro deixou claro de que lado o bolsonarismo se posiciona.

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