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Após nova investida dos Bolsonaros, os EUA rotulam gangues brasileiras como grupos terroristas

Dando sequência às ameaças, a administração Trump designou as duas maiores gangues de drogas do Brasil como grupos terroristas.

Por Ana Ionova | The New York Times

28/05/2026

Após nova investida dos Bolsonaros, os EUA rotulam gangues brasileiras como grupos terroristas
Membros do Comando Vermelho sendo presos no ano passado no Rio de Janeiro. Os EUA designaram a gangue como grupo terrorista na quinta-feira.Crédito...Mauro Pimentel/Agence France-Presse — Getty Images
Os Estados Unidos designaram as duas maiores gangues de drogas do Brasil como grupos terroristas na quinta-feira, após meses de lobby agressivo dos filhos do ex-presidente preso, Jair Bolsonaro, aliado próximo do presidente Trump.
 
A medida ocorre poucos dias depois de dois dos filhos de Bolsonaro, um dos quais planeja concorrer à presidência ainda este ano, terem visitado Trump na Casa Branca.
 
Após a reunião de terça-feira, Flávio Bolsonaro, que buscará a presidência em substituição de seu pai, disse aos repórteres que havia novamente pedido a Trump que rotulasse as gangues brasileiras como grupos terroristas.
 
A administração Trump pareceu conceder esse pedido com a designação na quinta-feira. Em comunicado, o Departamento de Estado dos EUA afirmou que as gangues brasileiras, o Comando da Primeira Capital e o Comando Vermelho, seriam rotulados como grupos terroristas a partir de 5 de junho.
 
“Sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a região e até o nosso país”, afirmou o comunicado.
 
O Departamento de Estado não respondeu às perguntas enviadas por e-mail sobre o momento da decisão ou a visita de Flávio Bolsonaro, mas afirmou que os grupos brasileiros atuavam em mais de uma dúzia de estados dos EUA e representavam “uma ameaça à nossa segurança pública.”
 
A designação de terrorista ameaça novamente tensionar os laços entre as duas maiores nações do Hemisfério Ocidental, que só recentemente começaram a reparar as relações.
 
Isso levantou preocupações entre autoridades brasileiras de que os Estados Unidos possam estar tentando influenciar sua próxima eleição ajudando outro Bolsonaro. Flávio Bolsonaro disse que desafiará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um esquerdista, em outubro e acusou o Sr. Lula de ser brando com o crime.
 
Nas redes sociais, Flávio Bolsonaro foi rápido em celebrar a designação de terrorista, assumindo o crédito por influenciar a decisão do governo Trump e criticando duramente a forma como Lula lidou com o crime.
 
A administração Trump rotulou mais de uma dúzia de gangues latino-americanas como organizações terroristas desde o ano passado, como parte de uma campanha para atacar grupos criminosos que, segundo autoridades americanas, ameaçam os Estados Unidos. Essas designações significam que o governo dos EUA pode impor amplas sanções econômicas aos grupos e entidades a eles ligados.
 
As gangues brasileiras exportam grandes quantidades de cocaína para a Europa e outras partes do mundo, mas especialistas dizem que elas não desempenham um papel importante no tráfico de drogas para os Estados Unidos.
 
O Sr. Lula se opôs à designação, apresentando-a como uma intromissão nos assuntos internos de seu país e argumentando que existem formas melhores de combater o crime organizado, como empoderar a polícia, coordenar melhor operações internacionais e atacar os ativos financeiros das gangues.
 
Pouco antes da designação, Celso Amorim, principal assessor de política externa do Sr. Lula, disse que o governo brasileiro estava trabalhando arduamente para desmantelar redes criminosas organizadas, mas novamente descartou as designações como uma ferramenta nessa luta.
 
“O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação”, disse o Sr. Amorim em um fórum de segurança em Moscou. “Equiparar crime organizado ao terrorismo, no entanto, não é útil.”
 
Redes criminosas tornaram-se uma grande preocupação para os eleitores brasileiros antes das eleições, e a designação dos EUA pode destacar a questão da segurança. Isso pode ajudar Flávio Bolsonaro, justamente quando o apoio dos eleitores parece vacilar após um escândalo que o liga a um banqueiro desonrado que está sob investigação em um vasto esquema envolvendo fraude.
 
A designação dos EUA pode causar um grande problema para o setor bancário porque pode permitir que os Estados Unidos imponham sanções a instituições brasileiras que possam ter feito negócios com as gangues.
 
Especialistas dizem que esse é um risco importante porque as gangues brasileiras conseguiram infiltrar a economia formal, acumulando participações em distribuição de gás, imóveis, commodities e criptomoedas. Isso deixa as instituições financeiras brasileiras vulneráveis.
 
No ano passado, Trump usou tarifas e sanções para tentar manter Jair Bolsonaro, ex-presidente, fora da prisão sob acusações de supervisionar um golpe após perder a última eleição em 2022, para Lula. O Sr. Bolsonaro foi finalmente condenado e sentenciado à prisão. O Sr. Trump posteriormente retirou muitas das tarifas e sanções, aliviando as tensões diplomáticas.
 
Mas a questão do crime organizado voltou a tensionar as relações nos últimos meses, depois que o secretário de Estado Marco Rubio disse ao ministro das Relações Exteriores do Brasil que o governo Trump planejava rotular as gangues como grupos terroristas e pediu ao Brasil que fizesse o mesmo, segundo autoridades com conhecimento da conversa.
 
O Sr. Lula visitou o Sr. Trump em Washington no início deste mês, mas o líder brasileiro disse que a questão das designações não havia sido discutida.
 
Adam B. Ellick contribuiu com a reportagem.
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