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Flávio Bolsonaro ataca fim da escala 6×1 e propõe “alternativa” que reduz direitos após reunião com ministro de Bukele

Após encontro com ministro da Justiça de El Salvador, senador propõe criar 500 mil vagas em presídios ignorando violações documentadas no país de Bukele. Em paralelo, apoia proposta que enfraquece acordos coletivos e reduz salários e benefícios proporcionalmente às horas trabalhadas.

Por Plínio Teodoro | Fórum

30/08/2026

Flávio Bolsonaro ataca fim da escala 6×1 e propõe “alternativa” que reduz direitos após reunião com ministro de Bukele
Flávio Bolsonaro, cercado de iates e jet skis, durante "barqueata" em Angra (Vittor Sales / Divulgação da campanha)

O senador Flávio Bolsonaro (PL) se reuniu com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, na manhã deste domingo (30), em São Paulo para discutir o combate à criminalidade, e declarou em seguida que o Brasil “tem pouco preso” e precisa “prender mais”.

Na entrevista, após o encontro, Flávio Bolsonaro defendeu a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), protocolada por Rogério Marinho (PL-RN), seu coordenador de campanha, que cria jornada flexível remunerada por hora e permite que contratos individuais se sobreponham a acordos coletivos, numa ofensiva direta à PEC que prevê o fim da escala 6×1 no Senado, que está na pauta do Senado.

Flávio Bolsonaro e o modelo de segurança de El Salvador

Flávio Bolsonaro se reuniu com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, para discutir experiências de combate à criminalidade. O encontro, que contou com a presença do senador Sérgio Moro (PL) e dos candidatos ao Senado Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), ambos por São Paulo, serviu de plataforma para o senador anunciar sua visão de segurança pública para o Brasil.

Em entrevista após o encontro, Flávio foi direto: “Tem pouco preso no Brasil, tinha que ser mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa. Por isso, vamos criar mais meio milhão de vagas em presídios pra que ladrão de celular que comece com pena de no mínimo 8 anos de cadeia fique preso, não apenas seja preso”.

A declaração ignora um dado inconveniente: a população carcerária brasileira já é a terceira maior do mundo, com cerca de 965 mil pessoas presas, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O custo da expansão prisional proposta pelo senador foi estimado por ele mesmo entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões em quatro anos. Questionado sobre como abriria espaço no orçamento, Flávio mencionou cortes de despesas sem especificá-los e apostou em receitas futuras da exploração de petróleo na Margem Equatorial. Nenhum dos dois caminhos foi detalhado com números ou cronograma.

O modelo que inspira Flávio Bolsonaro em El Salvador carrega um histórico que o senador preferiu não mencionar. O governo de Nayib Bukele é conhecido pela construção de megaprisões e por prisões em massa realizadas sem mandado judicial. Segundo relatório da Human Rights Watch publicado em fevereiro deste ano, mais de 90 mil pessoas foram presas arbitrariamente sob o regime de Bukele, incluindo mais de 3 mil crianças. A entidade documenta um padrão sistemático de violações de direitos fundamentais como método de política pública.

No campo da segurança, especialistas alertam que o encarceramento em massa produz efeitos colaterais que a retórica punitivista costuma ignorar. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do país, nasceram dentro do sistema prisional e continuam recrutando integrantes nas cadeias. Ampliar vagas sem enfrentar esse problema estrutural pode significar, na prática, ampliar a capacidade de organização das próprias facções que se pretende combater.

A proposta de flexibilização da jornada de trabalho

Enquanto o debate sobre o fim da escala 6×1 avança no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição com o apoio explícito do senador. A PEC cria um modelo de jornada flexível baseado em horas trabalhadas e remuneração proporcional ao tempo exercido. Além de Flávio, a proposta reúne assinaturas de Sérgio Moro, Hamilton Mourão, Damares Alves e Ciro Nogueira.

“Nós vamos trabalhar pela liberdade, para que o trabalhador brasileiro possa escolher sua própria carga horária de trabalho, como é que vai trabalhar. Tem muita muita mulher, por exemplo, que não tem condições de trabalhar 8, 7 ou 6 horas por dia, pode trabalhar só 4 horas por dia, porque não tem com quem deixar os seus filhos. Então, com a nossa proposta alternativa a essa, que que vai ser uma remuneração com todos os direitos trabalhistas garantidos, mas por horas trabalhadas”, disse na entrevista, buscando enganar os trabalhadores com a “alternativa”.

“Quem precisa trabalhar menos, quem não tem condições de trabalhar mais, tem que ter esse direito. Agora, aquela pessoa que também quer trabalhar mais para poder ganhar mais e e levar mais dignidade para a sua casa, também tem que ter o direito de escolha. Isso nós vamos defender”, emendou, antecipando o embate que deve acontecer na reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na próxima quarta-feira (2).

O núcleo da proposta da ultradireita está na alteração do artigo 7º da Constituição: o texto permite que contratos individuais prevaleçam sobre acordos coletivos firmados por sindicatos, estabelecendo a “livre pactuação contratual direta entre empregado e empregador”. Na prática, enfraquece convenções coletivas e amplia o poder de barganha das empresas sobre cada trabalhador individualmente, sem o respaldo da negociação coletiva.

As consequências financeiras são concretas. Férias, 13º salário, FGTS e demais benefícios passariam a ser calculados proporcionalmente às horas efetivamente trabalhadas, com o valor mínimo da hora atrelado ao salário mínimo ou ao piso da categoria. Flávio apresentou a proposta como ampliação de liberdade, citando o exemplo de mulheres que precisam trabalhar menos horas por não ter com quem deixar os filhos. Críticos, porém, apontam que a mesma lógica abre caminho para vínculos mais precários e representa uma resposta da direita ao avanço da pauta pela redução de jornada sem corte de salário.

Na frente trabalhista, parlamentares governistas e entidades sindicais enxergam a PEC de Marinho e Flávio como uma manobra para deslocar o debate sobre o fim da escala 6×1 para um terreno favorável ao empresariado. A proposta chegou ao Senado logo após a Câmara aprovar o texto pelo fim da escala 6×1, relatado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA) a partir de proposta do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), com apoio do governo federal. O timing não passou despercebido: nos bastidores do Congresso, a iniciativa é lida como tentativa de obstruir a votação da proposta original ao oferecer uma alternativa que entrega ao mercado o que a pauta progressista buscava limitar.

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