Mais uma vez, de maneira inédita, o consulado dos EUA em SP recebeu para uma reunião influenciadores da extrema direita como Leandro Narloch, Maria Fernanda Schmidt, do Brasil Paralelo, Rafael Ferri e Penélope Nova. O tema dessas reuniões foi debater “liberdade de expressão”, reforçando a narrativa de “censura” e “perseguição” aos bolsonaristas.
Em 23 de julho, Maria Fernanda Schmidt postou no Instagram fotos no consulado e escreveu: “Foi uma excelente oportunidade para compartilhar com os diplomatas os desafios enfrentados por influenciadores, jornalistas e produtores de conteúdo no ambiente digital, em um diálogo enriquecedor sobre os rumos da liberdade de expressão no Brasil”.
A narrativa espalhada pela extrema direita é que tudo vale, uma vez que a Usaid financiava organizações que defendiam a integridade eleitoral e investigam desinformação. Segundo Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo falaram abertamente
em uma live há algumas semanas, se a direita ganha, a eleição é justa; se a esquerda ganha, é porque há fraudes.
Depois de 1 ano e 8 meses sem embaixador no Brasil, o governo Trump está tentando empurrar um embaixador ideológico, de extrema direita e sem nenhuma experiencia em diplomacia para chegar ao país dois meses antes das eleições.
A poucos minutos de encerrar as atividades do Congresso antes do recesso, o Senado dos EUA aprovou a nomeação do embaixador Daniel Perez para assumir o posto no Brasil.
A decisão visa ampliar a pressão sobre o governo Lula e tem apenas como objetivo interferir nas eleições brasileiras.
Desde que Trump assumiu, ele deixou mais de metade dos países sem embaixadores, optando por fazer política externa através de chantagens e estruturas paralelas, para desespero dos diplomatas de carreira do Departamento de Estado, como mostrei
neste artigo.
A pressa para enviar Daniel Perez ao Brasil foi pensada para que ele possa impulsionar a narrativa de “promover a liberdade de expressão”. Como a Pública mostrou, Perez, que é presidente do legislativo da Flórida, nunca foi diplomata, é um político altamente ideológico e anti-comunista que já prometeu, na sua sabatina, que vai trabalhar pela “liberdade de expressão” no Brasil. Segundo o jornalista Paulo Motoryn, enquanto Perez presidia a câmara da Flórida, ele recebia por contratos como advogados – um dos seus clientes está o canal de TV Newsmax, que foi um dos principais difusores da mentira sobre fraudes nas eleições presidenciais de 2020. A empresa teve que pagar US$ 67 milhões à empresa de tecnologia eleitoral Smartmatic, por tê-la associado a manipulação das eleições.
O governo Lula já deixou claro que vai sentar em cima da indicação até depois das eleições.
Como retaliação, os EUA cancelaram o visto da embaixadora do Brasil dos EUA, Maria Luiza Viotti, uma diplomata de carreira, bem diferente de Daniel Perez. A coisa promete escalar e pode chegar até a expulsão de Viotti.
Em 28 de julho, o governo dos EUA anunciou a prorrogação por um ano de uma ordem executiva, um decreto assinado por Trump em julho de 2025, que declara uma emergência nacional nos EUA contra o Brasil, por considerar o nosso país uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA. A medida permite adotar sanções econômicas em momento de “emergência”.
No documento que anunciou a prorrogação, o governo Trump afirmou que o Brasil tem práticas que “interferem na economia dos Estados Unidos, infringem os direitos de livre expressão de cidadãos norte-americanos, violam os direitos humanos e minam o interesse dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas”. O documento também defende Bolsonaro: diz que membros do governo federal “perseguem politicamente um ex-presidente, sua família e seus apoiadores”, sem citar o nome do ex-presidente condenado por tentar dar um golpe de Estado. E cita prisões de pessoas por “exercerem a Liberdade de expressão” e o STF como “promotor de censura”.
Isso tudo estaria levando a um “colapso deliberado do Estado de Direito”, segundo o governo Trump.
Alguma dúvida de que virão mais pressões?