Vale lembrar, o governo de Javier Milei é contra políticas do Mercosul, tendo assinado um Acordo de Comércio e Investimento Recíproco com os EUA em 2025, assim minando o papel de integração do bloco.
Em meados de julho de 2026, Flávio Bolsonaro sinalizou uma posição similar ao propor a criação do Acordo de Livre Comércio das Américas (AFTA, na sigla em inglês), um novo acordo de livre-comércio entre o Brasil, os Estados Unidos, o México e o Canadá, sugerindo que poderia incluir a Argentina no futuro.
Contudo, o contexto econômico internacional aponta na direção oposta. A intensificação da guerra tarifária entre as grandes potências e a crescente fragmentação do comércio global têm levado o Mercosul a reforçar sua atuação como plataforma de inserção internacional dos países-membros.
Nos últimos meses, o bloco acelerou negociações comerciais e ampliou sua agenda externa, consolidando acordos com a União Europeia e Singapura e avançando nas tratativas com Canadá, Japão e Vietnã. Nesse cenário, o Brasil e a Argentina continuam a ser peças centrais para o funcionamento do Mercosul.
“Eu vejo essa tentativa do Milei em sabotar o Mercosul em benefício de uma aliança mais próxima, um comércio bilateral com os Estados Unidos, algo que não vai prosperar no sentido de comprometer o que se consolidou nesses últimos 18 meses, a partir do tarifaço de Donald Trump”, diz Valdez. “Acho que o Mercosul, agora, ganha um dinamismo, ganha um protagonismo maior.”
Nesse sentido, avalia, os recentes acontecimentos entre Brasília e Buenos Aires não podem ser compreendidos como uma crise bilateral, mas como parte de uma disputa geopolítica mais ampla na América do Sul. “O Brasil é um país importante, está no meio da disputa entre as duas grandes potências, Estados Unidos e China, pelo controle de insumos estratégicos para tecnologias avançadas.”
Gonçalves, por sua vez, enfatiza que o Mercosul transcende sua dimensão econômica e representa um dos principais instrumentos de integração política da América do Sul. O bloco foi decisivo para consolidar a estabilidade regional ao encerrar décadas de rivalidade entre Brasil e Argentina, “selando a paz no Cone Sul” ao superar as tensões que marcaram as relações bilaterais até o fim dos regimes militares, razão pela qual não pode ser enfraquecido por divergências ideológicas conjunturais ou pela influência de potências externas.
Assim, Gonçalves defende que cabe ao Brasil preservar seu projeto histórico de integração regional e exercer a liderança do bloco diante desse cenário. “O Brasil deve fazer valer o seu projeto de Estado, que é promover a integração regional […] e deve se colocar como uma nação respeitável e responsável pelo Mercosul.”
“Nós não podemos permitir que um indivíduo desse, que é um fantoche dos Estados Unidos, venha quebrar a unidade do Mercosul. É justamente isso o que eles querem.”