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Mensagens e áudios indicam lista de propina do PCC para delegacias de SP (ÁUDIO)

Delegacias são citadas em conversas de operadores financeiros do PCC sobre supostos pagamentos de propina para ocultar lavagem de dinheiro

Por Guilherme Bianchi e Renan Porto | Metrópoles

22/07/2026

Mensagens e áudios indicam lista de propina do PCC para delegacias de SP
Fachada do DEIC | Reprodução/Google Maps

Pelo menos quatro delegacias de São Paulo foram citadas em conversas de operadores financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre supostos pagamentos de propina, de acordo com representação do Ministério Público do Estado  (MPSP). Mensagens trocadas entre os criminosos indicam pagamentos ao 13° Distrito Policial (Casa Verde), ao 39° Distrito Policial (Vila Gustavo), ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e a uma Seccional da Polícia Civil para proteger  esquema de lavagem de dinheiro da facção.

O MPSP deflagrou, na manhã desta terça-feira (21/7), a Operação Janus para desarticular rede suspeita de lavar dinheiro para o crime organizado. A investigação apontou a existência de um “banco paralelo” operado por criminosos para ocultar e dar aparência de legalidade ao dinheiro oriundo do crime. Até o momento, 11 suspeitos foram presos.

Bruno Ramos Fernandes, acusado de ser um dos responsáveis por viabilizar o fluxo de valores do “banco paralelo”, foi um dos capturados. Em uma troca de mensagens com Robson Martins de Souza, apontado como uma das figuras centrais do esquema, os criminosos trataram sobre a necessidade de arrumar dinheiro vivo para pagar policiais do 13° e do 39° DPs, além de uma Delegacia Seccional da zona norte.

Segundo a investigação, os presos utilizavam um código para ocultar as quantias reais, removendo o último dígito dos valores. Assim, eles mencionavam pagamentos de R$ 7,5 mil e R$ 15 mil às delegacias.

Em outra conversa pelo WhatsApp, dessa vez com Cléber Azevedo dos Santos, outra peça central ao lado de Robson, Bruno Fernandes foi ordenado a separar R$ 50 mil para “pagar a polícia”, conforme documento do MPSP.

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que “apoia integralmente as investigações conduzidas pelo Ministério Público e mantém atuação permanente de cooperação com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) no enfrentamento às organizações criminosas”. A pasta ressaltou que não admite qualquer desvio de conduta por parte de seus agentes e que as polícias Civil e Militar atuam, por meio de suas Corregedoria, para assegurar a apuração rigorosa de eventuais irregularidades.

“A SSP não admite qualquer desvio de conduta por parte de seus agentes. Todas as denúncias ou indícios de irregularidades são apurados com rigor e, caso haja comprovação de ilícitos, os responsáveis são responsabilizados nas esferas administrativa e criminal, na forma da lei”, escreveu.

“Precisa pagar os polícia do Deic”

Áudios obtidos pelo Metrópoles também mostram Cléber Azevedo pedindo a liberação de R$ 100 mil aos companheiros do esquema para um “cliente” do crime organizado pagar o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil.

Em outra gravação, que teve como destinatário Amjad Ahmad, também apontado como operador financeiro da facção, Cléber fala sobre suposto pedido de pagamento feito por policiais civis do setor de crimes cibernéticos do Deic. Segundo o investigado, os agentes queriam “tomar 300 conto [R$ 300 mil] dele”.

“Oh, meu amigo, como é que cê tá? Tudo bom? Espero que esteja tudo bem. Deixa eu te fazer uma pergunta. Aquela vez que te ajudaram lá no Deic… eu tô com um problema lá. Caí num golpe que eu te falei lá. O cara colocou um dinheiro ruim na minha conta. Bloqueou 11 conto e tô com 5 pau bloqueado. Foi um golpe mesmo. Eu tenho as pessoas tenho tudo. Além de tudo os caras querem indiciar o Robson, e ainda querem tomar 300 conto dele”, afirmou Cléber na gravação — que também não teve a data especificada.

Operação Janus

A Operação Janus, deflagrada na manhã desta terça-feira (21/7), investiga a atuação de operadores financeiros em benefício do PCC. Os alvos são suspeitos de movimentar recursos financeiros, realizar operações de conversão de dinheiro em espécie em transferências bancárias e atuar na ocultação, circulação e disponibilização de valores atribuídos à facção.

Segundo as autoridades, na prática, os investigados recebiam o dinheiro ilícito e devolviam os valores por meio de transferências eletrônicas realizadas por pessoas jurídicas criadas, o que camuflava a origem criminosa.

Ao todo, as autoridades cumprem 18 mandados de prisão preventiva e 18 mandados de busca e apreensão expedidos pela Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores. Cinco deles estão foragidos. Veja quem são todos os alvos:

  • Cléber Azevedo dos Santos (preso)
  • Robson Martins de Souza (preso)
  • Antonio Carlos Ubaldo Junior (preso)
  • Paulo Rogério Silva (preso)
  • Odair Alves da Silveira Filho (preso)
  • Leonardo Meirelles (foragido)
  • Marlon Antonio Fontana (preso)
  • Bruno Ramos Fernandes (preso)
  • Meire Bomfim da Silva Poza (presa)
  • Fernanda Esteves Silva Lopes (presa)
  • Danillo Vinicius da Silva Rosario (foragido)
  • André de Souza Haddad (preso)
  • Antonio Carlos Sampaio (foragido)
  • Alexandre Viriato da Silva (preso)
  • Raphael Flores Rodriguez (foragido)
  • Amjad Ahmad (foragido)
  • Eduardo Américo Coelho (preso)
  • Marcelo de Morais Oliveira (preso)

Deic já foi chamado de “banco” por doleiro: “A gente só deposita”

Em uma outra conversa, no dia 15 de junho, Cleber Azevedo enviou uma foto do interior do Deic ao doleiro Raphael Flores Rodrigues. O doleiro, identificado na conversa como “Batata”, ironizou: “É a fachada do banco aí. Isso aí não é delegacia, é banco. Só que só deposita, nunca saca”.

O material obtido indicou à investigação a existência de um fluxo de pagamento de propinas, intituladas “despesas do Deic”, e a divisão dos valores por meio de empresas de fachada e dinheiro vivo.

Raphael Flores Rodriguez foi preso pela Polícia Federal (PF) no fim de março durante a segunda fase da Operação Narco Azimut, por suspeita de envolvimento em um outro esquema, de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em 2020, ele foi condenado em uma ação relacionada à Lava Jato por um esquema de envio de dinheiro para o exterior em benefício de Alberto Youssef.

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