O funcionamento da Flavio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia expõe contradições financeiras e societárias que conectam a banca do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a alvos de duas investigações conduzidas pelo Congresso Nacional: o esquema de fraudes no INSS e as operações financeiras envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro.
Uma análise documental do histórico do escritório revela uma discrepância entre o faturamento atual e as operações registradas no início de suas atividades. Aberta em abril de 2021, com capital social de R$ 10 mil e sede registrada no mesmo endereço da casa de R$ 5,97 milhões comprada pelo senador no Lago Sul, em Brasília, a firma mantinha operações mínimas em 2022.
Em entrevista concedida à Agência Pública naquele ano, Letícia Caetano dos Reis, que consta como a única sócia-administradora do escritório de Flávio Bolsonaro, afirmou que o local não tinha funcionários com registro em carteira e que atendia apenas a dois clientes. Questionada sobre quem eram os contratantes da consultoria jurídica do parlamentar, ela declarou não saber os nomes, mas forneceu uma pista:
“Um é uma igreja”.
Letícia relatou atuar como administradora formal, sem acesso aos contratos, informações que seriam controladas exclusivamente pela contabilidade com autorização do senador. A sócia também informou que mantinha contato com Flávio Bolsonaro apenas por meio de mensagens de WhatsApp, sem a realização de reuniões presenciais.
A estrutura de administração da firma de advocacia ganhou relevância em âmbito federal após a Revista Fórum revelar as conexões familiares da sócia de Flávio Bolsonaro. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, contador identificado pela Polícia Federal (PF) como sócio e operador de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”.
Antunes é apontado pelas investigações policiais e parlamentares como o principal articulador do esquema de descontos associativos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. O rastreio financeiro apresentado na CPMI do INSS demonstrou que Alexandre Caetano operava em sociedade com o “Careca” na Camilo & Antunes Limited (RPDL LTD33), uma empresa offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas.
De acordo com os requerimentos apresentados ao colegiado, a offshore foi utilizada apenas em 2024 para a aquisição de quatro imóveis no valor total de R$ 11,05 milhões. A ligação societária levou parlamentares a protocolarem pedidos de convocação do senador e de sua administradora, além de solicitarem as quebras de sigilo bancário e fiscal e os Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) junto ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
O perfil de um escritório com “dois clientes” contrasta com a recente emissão de documentos fiscais revelada pelo portal Metrópoles nesta quarta-feira (22). De acordo com os registros, o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu um total de R$ 1,5 milhão em notas fiscais em abril de 2025.
Foram emitidas três faturas de R$ 500 mil cada. Duas delas, que somavam R$ 1 milhão, tiveram como destinatária a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., registradas como prestação de “serviços de consultoria jurídica”. As notas foram emitidas e canceladas no mesmo dia (7 de abril).
A Copenhagen Consultoria chama a atenção por sua estrutura societária e movimentação. A empresa foi aberta com um capital social de apenas R$ 40 e não possui site institucional, mas recebeu transferências que totalizam R$ 58 milhões do Banco Master, instituição de propriedade de Daniel Vorcaro.
A terceira nota de R$ 500 mil foi emitida dois dias depois, em 9 de abril, para a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda, que opera com o nome fantasia BR Global. Esta nota permanece válida. O elo entre as duas empresas recebedoras das notas é o contador Rogério Lourenço Novo, que atua como diretor da Copenhagen e consta como único sócio da Contábil Correa.
Em sua defesa, o senador Flávio Bolsonaro confirmou a contratação pela Contábil Correa, alegando que prestou serviços legais. No entanto, ele não especificou qual foi a consultoria jurídica realizada no valor de R$ 500 mil. O contador Rogério Lourenço afirmou que o escritório foi subcontratado para atender um dos mais de 200 clientes de sua carteira, mas declarou não se lembrar qual cliente específico recebeu a consultoria milionária do parlamentar.
Os documentos em posse da CPMI e da Polícia Federal adicionam uma terceira peça ao cruzamento de dados: o advogado Willer Tomaz. Em sua entrevista à Pública em 2022, Letícia Caetano declarou que sua indicação para gerir a firma de Flávio Bolsonaro foi feita diretamente por Tomaz, advogado com trânsito entre políticos de Brasília e aliado da família Bolsonaro.
Os requerimentos da comissão parlamentar apontam que Willer Tomaz também realizou transferências financeiras para o grupo investigado nas fraudes do INSS. Segundo a PF, o advogado repassou R$ 120 mil para Milton Salvador de Almeida Júnior, apontado como um dos operadores financeiros diretos de Antônio Carlos Camilo Antunes.
Além disso, o RIF de Tomaz registrou movimentações atípicas de R$ 45,5 milhões, considerando entradas e saídas, no período de maio a novembro de 2021.
Diante do acúmulo de documentação fiscal e relatórios da Polícia Federal mapeando operações em paraísos fiscais, o silêncio sobre a natureza real dos serviços prestados pelo escritório alimenta a pressão no Congresso. A Fórum mostrou que os cruzamentos de dados baseiam a intenção de deputados governistas em pedir o indiciamento do senador pelas operações detectadas na investigação.
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