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Justiça bloqueia bens de empresa de amigo de Flávio que sumiu com R$ 20 milhões do RJ

RioPag faz intermediação de pagamentos para a Loterj e não diz onde estão R$ 20,9 milhões do estado que ela deveria estar custodiando

Por Demétrio Vecchioli | Metrópoles

23/07/2026

Justiça bloqueia bens de empresa de amigo de Flávio que sumiu com R$ 20 milhões do RJ
Rio Pag Loterj | Arte Metrópoles

A Justiça do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de R$ 20,9 milhões da RioPag, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo próximo do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). A coluna Demétrio Vecchioli revelou na semana passada que a RioPag sumiu com este montante, que pertence ao governo do Rio.

A RioPag, uma sociedade anônima que fica debaixo de uma cadeia de fundos e não tem seus acionistas conhecidos – exceto por Tomaz -, fechou em 2023 um rentável contrato pelo qual ganhou do governo Cláudio Castro (PL) o monopólio para intermediar pagamentos para casas de apostas esportivas e para os futuros cassinos fluminenses – que a gestão Castro insistia em chamar de “video-loteria” – com taxas muito acima do mercado.

Um exemplo concreto explica o tamanho da benesse: em janeiro de 2025, uma única empresa licenciada pelo Rio de Janeiro teve R$ 279 milhões de receita líquida. Ela pagou R$ 13,9 milhões em impostos para o estado, que sempre promoveu sua licença como mais barata do que a federal, e R$ 30 milhões à RioPag só pela intermediação de pagamentos, tanto depósitos quanto saques.

A Loteria do Rio (Loterj) fica com 26% da arrecadação da RioPag, mas a autarquia, sob o comando de um político do PL, decidiu pedir que a empresa de Tomaz suspendesse os pagamentos, no início de 2025, sem qualquer justificativa, solicitando que ela fizesse a “custódia” dos valores. Quando notou isso, a nova gestão do governo do Rio pediu que o dinheiro fosse devolvido imediatamente.

Como revelou a coluna, a RioPag primeiro não respondeu, depois pediu prazo até o final do contrato e, diante das negativas, propôs um parcelamento, que não foi aceito pelo Rio. Em entrevista ao Metrópoles, Tomaz, que também é advogado da empresa, afirmou que havia informado a Loterj no dia 10 de julho que o dinheiro está em um investimento no Banco Santander que precisa de seis meses após a comunicação ao banco para ser resgatado. Disse também que uma carta do Santander havia sido protocolada no sistema do governo.

A RioPag não só negou que tenha sido informada ou tenha tido acesso ao documento como trucou o advogado e a RioPag. Pega de surpresa, enviou ofício lembrando que as declarações “indicam circunstâncias que, até o presente momento, não foram formalmente comunicadas ou comprovadas nos autos do processo administrativo correspondente, especialmente no que se refere à alegada contratação de fundo de investimento, à existência de prazo de carência para resgate, à instituição financeira responsável pela administração dos recursos, à remuneração obtida, aos critérios de aplicação adotados e à efetiva disponibilização de relatórios ou acesso às informações mencionadas na Nota Oficial“.

No mesmo dia a RioPag entrou na Justiça pedindo o bloqueio dos bens da RioPag. Só depois disso, no dia 21, é que Tomaz teria enviado, segundo ele, um e-mail à Procuradoria Geral do Estado informando que o dinheiro está investido no Banco Santander.

A ação da Loterj seguiu, porém, e teve decisão nesta quarta-feira, quando a juíza da 14ª Vara da Fazenda Pública da Capital, Cristiana Aparecida de Souza Bonato, entendeu que está comprovado que os valores pertencem à Loterj, destacando que os recursos possuem natureza pública e que a recusa da empresa em efetuar a devolução imediata não encontra justificativa contratual.

O que diz a RioPag:

Em nota nesta quinta, a RioPag disse “os valores em questão estão aplicados em produto bancário com proteção de capital em instituição financeira de primeira linha, com resgate já solicitado e liquidação prevista para outubro de 2026 — e serão entregues à LOTERJ acrescidos dos rendimentos, que revertem integralmente à Autarquia”. A Loterj alega nunca ter sido comunicada disso.

“Os fatos, documentados, são incompatíveis com a narrativa publicada: (i) a custódia dos recursos foi determinada pela própria LOTERJ, por ofício formal de fevereiro de 2025; (ii) tão logo a orientação foi alterada, em abril de 2026, os repasses mensais foram imediatamente restabelecidos; (iii) desde junho de 2026 a empresa antecipa, todo mês, R$ 2 milhões à Autarquia; (iv) as informações sobre a aplicação foram prestadas à Procuradoria-Geral do Estado, com quem a empresa trata a questão em procedimento formal de solução consensual. Quem ‘some’ com dinheiro não antecipa milhões mensais ao suposto lesado nem procura a Procuradoria do Estado para formalizar a devolução”, disse a RioPag, que por enquanto só pagou uma vez a parcela de R$ 2 milhões.

“A decisão judicial mencionada é liminar e provisória, proferida antes do exame do conjunto completo de fatos e documentos, e será objeto dos recursos cabíveis. Registre-se, contudo, que o bloqueio em nada altera a realidade que a RioPag sempre afirmou: os recursos existem, estão preservados e têm destinação certa — a LOTERJ”, continuou a empresa. “Por fim, a RioPag repudia a insistente tentativa de contaminar politicamente uma divergência estritamente contratual, decorrente de contrato firmado mediante licitação pública, por meio da exploração de relações pessoais alheias aos fatos”, disse.

Já Tomaz afirmou que “repudia, nos termos mais firmes, a utilização reiterada de seu nome como rótulo político de manchetes sobre uma divergência contratual da qual não é parte”.

“Willer Tomaz não é gestor, administrador ou dirigente da RIOPAG, não é investigado, não é réu e não figura em nenhum procedimento administrativo ou judicial relativo aos fatos noticiados . É advogado da empresa — e advocacia se exerce por mandato, prerrogativa constitucional que nenhuma coluna de jornal revoga”, afirmou. À coluna, ele disse ser acionista do fundo que controla a empresa e que recebe rendimentos mensais a partir da RioPag.

“A construção ’empresa de amigo de’ é um artifício retórico desonesto: sugere ao leitor, sem afirmar — porque afirmar seria indefensável —, que relações pessoais explicariam um contrato firmado em licitação pública em 2023. Não há um fato, um documento ou um indício que sustente essa insinuação, repetida agora pela segunda vez pelo mesmo colunista, já ciente dos esclarecimentos formais que recebeu e optou por ignorar”, afirmou o advogado. A relação de amizade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz foi revelada pelo senador, durante audiência no Senado, em que reclamou que requerimentos de convocação da CPI da Covid visavam atingir seus amigos, entre eles Tomaz.

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